Kutsemba Cartão

"Uma página aberta ao porvir"

PERCURSOS E ITINERÁRIOS DUMA JOVEM ESCRITORA: ENTREVISTA COM CAELI GOBBATO

Kutsemba Cartão: Poesia, actuação, produção de espetáculos, teatro, música, revistas culturais… O qué é que melhor define a Caeli Gobbato?

Caeli Gobbato: O meu pai é fotógrafo e a minha mãe figurinista, artista plástica e estilista, cresci com livros, visitas ao quarto escuro de revelação de fotos, em bastidores de teatros esperando a minha mãe, e comecei a estudar arte e a trabalhar bem cedo, aos 13 anos, em Curitiba. Não sei o que me define, acho que depois de andar por várias estradas percebi que sempre escrevi, que foi a primeira coisa criativa que fiz e que continuei fazendo, sempre, sem dar por isso.

K.C.: Sabemos que escreveste o teu primeiro poema aos 9 anos. Quando começaste a enveredar pela narrativa?

C.G.: Sabe que ainda não tinha feito esta retrospectiva, mas lembro que as histórias começaram a aparecer pelos 15 anos. Essa coisa do poema foi engraçada, há pouco tempo lembrei disso e percebi que foi um momento importante, lembro da sensação ao escrevê-lo e das caras das pessoas ao lê-lo, mas que ficou escondido até o interesse pela escrita aparecer assumido.

K.C.: Quais as pessoas do mundo literário que te inspiraram, te incentivaram?

C.G.: Quando eu tinha uns 12 anos encontrei em casa uma coletânea de Fernando Pessoa e me apaixonei por aquilo, levava o livro pra escola todos os dias, fiz até uma capa pra ele depois que a primeira caiu. Depois veio a Clarice Lispector, outra paixão enorme. Sempre li muita dramaturgia também, lembro que um dos meus primeiros pensamentos com relação ao sentido de comunidade foi que não deveria ficar com um livro de Nelson Rodrigues pertencente à biblioteca do colégio, embora quisesse muito, era a obra completa. Pelos 15 anos encontrei Saramago e nunca mais pude deixar de lê-lo, acho que juntamente com Gabriel García Márquez e Guimarães Rosa, foi ele que me fez pensar seriamente em escrever, agradeço. De Moçambique também veio, um pouco mais tarde, alguém que até hoje me impressiona e que tenho guardado num lugar especial, Mia Couto.

K.C.: A selecção de contos recolhida neste livro é um panorama da tua obra narrativa desde o início do teu percurso, ou contem só textos mais recentes?

C.G.: Há um texto mais antigo, de 2003, mas a maioria foi escrita em Lisboa, onde vivo desde 2006. Acho que, como é natural, nos últimos anos tenho sentido as histórias mais inteiras, com uma vida mais crescida, então foram as mais recentes que passaram mais facilmente pela peneira.

K.C.: Rio de Janeiro, Lisboa, Barcelona, Jericoacoara… para além dos aspectos mais evidentes, como é que a tua escrita tem sido marcada pela tua passagem por estes lugares tão diversos?

C.G.: Sou carioca. A minha primeira grande mudança foi para Curitiba, no sul do Brasil, onde tudo era diferente, tive que me acostumar com o frio, com o fato do meu sotaque provocar riso, não ter amigos… foi muito difícil.  Mas também foi maravilhoso, faz a gente crescer mais rápido e respeitar e agradecer a diversidade. Foi o início do saborear uma introspecção, uma solidão que te faz observar, abrir os olhos, ouvir mais, o que vem atrelado a este tipo de mudança. Este livro é sobre o partir, o ficar, essa decisão que às vezes faz sofrer porque tomamos ou porque não tivemos coragem de tomar; é sobre percursos, atalhos, reflete muito das minhas andanças e do poder dos encontros, do espaço, do sentido de casa.

K.C.: Porque decidiste publicar São 11 os caminos com Kutsemba Cartão, uma editora  jovem e alternativa radicada em Moçambique, que confecciona livros utilizando cartão reciclado e fotocópias?

C.G.: É um projeto realmente importante. Ao mesmo tempo que chama atenção para a reutilização de materiais, promove a leitura e incentiva novos autores como eu a não sucumbirem às leis de mercado, chega à muitos e questiona também o sentido do objeto livro, o porquê de custar tanto e ser desejado por poucos. Me sinto honrada e feliz por ter tido a oportunidade de participar.

K.C.: No teu país natal nasceram duas das mais importantes editoras de livros de cartão: Dulcinéia Catadora (São Paulo) e Katarina Kartonera (Florianápolis), que nos têm prestado um grande apoio durante estes primeiros passos de Kutsemba Cartão em Moçambique. Achas que em Portugal, onde resides actualmente, seria possível dar início a um projecto editorial alternativo deste tipo?

C.G.: Vou fazer todo o possível para isso. Portugal é um país antigo e ainda muito jovem em alguns aspectos. Percebo uma necessidade de criar por si, de iniciar bons projetos aqui, ao invés de continuar sentado contemplando o que é alheio e almejando isso. Sinto que há muito fôlego e muita vontade, apesar de por vezes sentir que paira um pessimismo derrotista no ar, reparo em alguns movimentos, alguns olhos ansiosos por produzir, criar.

K.C.: Que podemos esperar de Caeli Gobbato no futuro?

C.G.: Entusiasmo.

K.C.: Que gostarias de dizer ao leitor moçambicano que adquire agora esta edição de São 11 os caminhos?

C.G.: Que agradeço com um abraço apertado. Que este encontro foi abençoado, que este livro nasceu onde, sem que eu soubesse, deveria nascer. Admiro muito o continente africano e respeito como se respeita um mais velho, sinto que é o que me será mais próximo, assim que os caminhos me levarem pela primeira vez até ele.

(12 de Novembro de 2010)

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22 diciembre, 2010 - Posted by | Kutsemba Cartão

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